Dicas para economizar (de verdade) na viagem

Antes de começar com as dicas, quero avisar que eu sou virginiana. Então eu levo muito a sério a organização de uma viagem. Muito a sério. Com planilha no excel com gastos e um cronograma que inclui até os minutos em uma fila. Esse nível de virginiana.

E toda essa organização tinha uma intenção: economizar ao máximo. Tudo o que eu podia fazer para deixar a viagem mais barata e sem perder em qualidade eu fiz. E valeu a pena. Minhas melhores experiências de viagem só aconteceram graças a essas economias.

1. Price of Travel

Descobri o site por acaso quando planejava a ida para Budapeste. A página trás um resumão da cidade que você pretende viajar. Clima, conversão monetária, população, um pedacinho da história, principais atrativos e o principal: quanto custa um dia na cidade. Do preço do ticket do metro a um sanduíche, tá tudinho lá. Esse site brasileiro também te ajuda a fazer as contas, mas acho o gringo mais completo.

2. Free Walking Tour

Por aqui a ideia ainda está começando, mas é super comum ver lá fora grupos fazendo free walinkg tours. É um passeio guiado, geralmente em inglês ou espanhol, que conta, de maneira leve e divertida, a história e curiosidades do local. O melhor é que o passeio não é sonolento e tem várias dicas que só quem mora na cidade poderia te dar. E, de acordo com a sua experiência, você paga quanto e se quiser. Todos os que eu agendei foram pela Sandesman e os guias são incríveis.

3. Couchsurfing

Hostel é uma opção barata de hospedagem, mas melhor que isso seria encontrar um lugar de graça não é? O site reúne pessoas dispostas a te hospedar em casa em um sofá ou colchão extra de graça. Além de fazer amizades, você ainda tem contato com a realidade do local. Se está com medo de ficar na casa de um estranho que não fala sua língua, procure no Facebook grupos de estudantes brasileiros na cidade. Consegui couch em praticamente todas as cidades que visitei assim.

4. Low cost

Abra mão do sonho da poltrona regulável e do espaço para as perninhas e viaje em vôos low cost. Parece bem terrível mas juro que não é tudo isso. As companhias low cost diminuem os mimos em uma viagem mas compensam no preço. Já consegui comprar passagens ida e volta por 20€ – e ainda paguei caro! A dica é levar um casaco para fazer de travesseiro, se desapegar na hora de fazer a mala (geralmente possuem tamanhos específicos) e respirar fundo.

Agora só juntar dinheiro no porquinho e se preparar a próxima viagem! 🙂

Abraçar o mundo

Tenho amigos que amam registrar cada segundo de uma viagem. Carregam consigo câmeras, celulares, baterias extras e olhares aguçados para os melhores ângulos. Outros não se sentem tão confortáveis com o peso da bolsa da câmera e preferem registrar na memória os detalhes. Sou um pouco dos dois dependendo do dia, da previsão do tempo, da viagem e da companhia.

Mas só ter algumas fotos publicadas no Instagram e outras guardadas em infinitas pastas no computador sempre me pareceram pouco. Em um lugar novo, eu não precisava apenas ver para crer, queria tocar, fazer carinho, sentir a textura, cheirar, quase lamber e abraçar para crer. Queria sentir a cidade, o monumento, a obra de arte, tudo na ponta dos dedos.

Antes de ir para Paris, eu acreditava que conseguiria abraçar a Torre Eiffel. Imaginava que sua estrutura de ferro se estendia até o chão e que com meus braços conseguiria escolher uma de suas barras e abraçá-la facilmente. E essa era uma das minhas metas, me grudar em um dos monumentos mais famosos do mundo e em todos os outros que encontrasse pelo caminho.

Infelizmente não tenho noção de tamanhos superiores a um metro e, por ter uma base de concreto que a liga no chão, meu abraço na Torre foi mais desajeitado e nada parecido com o que tinha imaginado.

Mas meu erro me abriu os olhos para uma possibilidade nova de experienciar o lugar. De deixar naquele canto específico do mundo uma marca, da mesma forma com que ver a Dama de Ferro, a estrutura rústica do Coliseu e a leveza de uma ponte me marcava.

Com a ajuda do tato tenho a impressão que os outros sentidos parecem mais verdadeiros. É como se ele te desse uma prova concreta de que aquilo realmente existe e não é fruto da sua imaginação fértil.

Usar o tato abraçando monumentos era minha maneira de comprovar que eu estava ali. Que eu tinha atravessado o oceano, que estava respirando ao lado de anos e anos de História, que os livros não mentiam. Que meus olhos e o coração acelerado não mentiam.

E a cada viagem, o frio na barriga e um formigamento na ponta dos dedos crescia – assim como minha coleção de abraços turísticos. Grudar em cada um deles, sentir sua textura, observar os mínimos detalhes, imaginar os rostos e histórias para cada um que fizeram aquilo possível dava mais sentido àquele monumento, momento e a mim mesma.
Durante o intercâmbio me grudei em doze pontos turísticos e aguardo ansiosamente o resto do mundo.

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Egy kicsit Budapest

Egy kicsit Budapest: um bocadinho de Budapeste, em húngaro (segundo o Google Tradutor)

Em 2014, eu e 102.411.369 pessoas nos apaixonamos por George Ezra quando ele cantou sobre Budapeste. Uma casa na cidade, um baú de tesouro escondido, um piano de calda dourado, um lindo castelo. Ele trocaria tudo por uma moça.

Quando ouvia falar da Hungria, me via novamente sentada na sala da quinta série lendo sobre Franz Ferdinand, o imperador austro-húngaro. Sobre sua capital, Budapeste, não conseguia visualizar nenhum monumento, ouvir um sotaque e nem sentir algum cheiro em específico.

Ouvi a música repetidas vezes antes de ir para o intercâmbio e enquanto caminhava pela cidade. A cada passo eu prendia a respiração. Era uma forma de diminuir a frequência dos batimentos cardíacos, me acalmar, deixar o tempo mais arrastado para aproveitar cada segundo.

Budapeste é uma cidade dividida em duas pelo rio Danúbio. O lado Buda, mais montanhoso, te leva para o Castelo de Buda e para o Bastião dos Pescadores. Com sete torres, cada uma representando uma das tribos que fundaram a Hungria, o monumento branco te transporta para tempos medievais.

Diversas vezes ouvi que a coisa mais incrível de Buda era a vista de Peste. E ao tirar um tempinho no Bastião para só admirar o que o outro lado do rio guarda, é difícil bater o pé e discordar.

A Ilha Margaret e o imponente Parlamento à esquerda, a cidade miúda, com casas que parecem pecinhas montadas por uma criança e as pontes à direita. À noite, as luzes se acendiam e deixavam a cidade com um amarelo confortável, que abraça a gente.

O cheiro de goulash, cafés e as risadas ao fundo tornavam a cidade cada vez mais aconchegante. Budapeste é um tesouro escondido na música de um inglês de voz grave.

Uma música diz que o moço abriria mão de sua casa em Budapeste pela moça. Eu não entendia como uma casa na cidade poderia significar algo grande, uma prova de amor, até chegar lá.
O ar frio dos dois lados da cidade, seus cantos, histórias e detalhes me abraçaram e me esquentaram de uma forma que eu não podia prever. Budapeste é espontânea e me deixou voltar para casa com grande parte dessa espontaneidade. Porque quando você ouve Arctic Monkeys na rua, você canta com todo o seu pulmão. Quando você tem a oportunidade de jantar de graça em um restaurante fino, você vai.
E quando você pode dar seu casaco extra para um senhor, provavelmente um refugiado, que estava tremendo de frio no metrô, você dá. Budapeste é mais incrível do que eu podia imaginar e era, sim, uma prova de amor.

Um Bocadinho, página 154

Ein Stückchen Berlin

Ein Stück: um bocadinho em alemão

Dias antes de fechar as malas para o mochilão eu senti uma pontada de medo. E se eu não conseguir entender as placas da rua? E se eu me perder? E se o dinheiro acabar? E o pior: e se eu não me identificar com nenhuma daquelas quatro cidades?

A primeira parada era Berlim. No fim de Janeiro a cidade me prometia neve, temperaturas negativas, cappuccinos quentinhos e uma aula de história ao ar livre. Conheci a tal temperatura negativa, com seus ventos ladrões de cachecóis e que queimam as bochechas. O cappuccino estava mesmo quentinho, mas esfriava rápido e a neve ficou para a próxima.

Berlim era como um livro em edição especial pop up que, ao abrir a página, desenhos crescem em 3D. O guia caminhava conosco por toda cidade, contando a história por trás de um muro, um portão, um memorial e um estacionamento. E a cada passo eu me sentia caminhando dentro das páginas do livro pop up.

A cidade te surpreende. Blocos de concreto no meio da cidade são um memorial aos judeus mortos no Holocausto. Um estacionamento com uma árvore plantada, um dia abrigou, cinco metros abaixo da superfície, o bunker onde Hitler se suicidou. Um muro que um dia dividiu uma cidade hoje é uma tela para artistas.

É incrível, mágico. É observar como acontece a resiliência (capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças) na prática. É fazer arte do que um dia marcou sua tristeza. E o medo de não conseguir me identificar e me apaixonar pela cidade ficou esquecido em alguma das esquinas ou no porta casacos do restaurante.

Abracei o Muro de Berlim sem vontade de soltar. Como se eu pudesse juntar os caquinhos de tudo o que foi despedaçado na história dessa cidade no último século. Não consegui. No fim do abraço quem estava em caquinhos era eu. Porque Berlim te parte no meio. Com um muro, com o peso de faces de metal, com memoriais, com sua história. Mas de alguma forma ela te junta em algo novo. Numa versão mais resiliente e mais consciente do que a vida é. Na sua versão mais completa.

Um Bocadinho, página 153

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Memorial do Holocausto
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Marcação no chão de onde era o Muro de Berlim

Una mica de Barcelona

Una mica: um bocadinho em castelhano.

Em Vicky Cristina Barcelona, Woody Allen descomplica o amor aceitando suas imperfeições e irracionalidades.  Ao comprar a minha passagem para a capital catalã, me vi obrigada a respirar fundo e fazer o mesmo exercício.

Sempre gostei de simetrias e linhas retas. Então pisar em Barcelona com seus azulejos picados e o torto de Gaudí me davam tremeliques de agonia. Não me orgulho, mas para mim, a Sagrada Família não era mais do que o produto de uma criança brincando com areia molhada, tentando em vão, construir um castelo de areia.

Não poderia estar mais enganada. De perto, cada detalhe das fachadas, as cores dos seus azulejos e o formato das colunas, me fizeram perder o fôlego. Precisei estar ali, vendo a luz brincar nos vitrais e imaginando Gaudí brincando com as formas para conseguir ver a beleza naquele lugar.

Depois de entender a Sagrada Família e o motivo de cada detalhe levemente torto a 60°, Barcelona tem outra cor, outro gosto. Precisei experienciar, sentir o gosto de uma paella, caminhar pela praia de Barceloneta, ser hipnotizada pelo cheiro do mercado La Boqueria.

Ouvir artistas de rua se apresentando nas Ramblas, andar até o Park Güell, decifrar a desordem dos azulejos, atravessar triunfalmente o Arco do Triunfo e me encantar com a Casa Milà.

Só depois de fazer tudo isso, e com muita atenção, é que Barcelona se mostra de verdade. Só na hora do embarque de volta, depois de despachar as malas, se sentar com pouco conforto na poltrona e olhar pela janela é que você entende o que o personagem da Casa do Lago disse sobre a luz de Barcelona.

Só depois de respirar fundo você vê o lugar que fez Gaudí se apaixonar e inspirou Woody Allen. Inhala, exhala. Só quando sente saudades do torto é que você começa a ver a cidade.