Ein Stückchen Berlin

Ein Stück: um bocadinho em alemão

Dias antes de fechar as malas para o mochilão eu senti uma pontada de medo. E se eu não conseguir entender as placas da rua? E se eu me perder? E se o dinheiro acabar? E o pior: e se eu não me identificar com nenhuma daquelas quatro cidades?

A primeira parada era Berlim. No fim de Janeiro a cidade me prometia neve, temperaturas negativas, cappuccinos quentinhos e uma aula de história ao ar livre. Conheci a tal temperatura negativa, com seus ventos ladrões de cachecóis e que queimam as bochechas. O cappuccino estava mesmo quentinho, mas esfriava rápido e a neve ficou para a próxima.

Berlim era como um livro em edição especial pop up que, ao abrir a página, desenhos crescem em 3D. O guia caminhava conosco por toda cidade, contando a história por trás de um muro, um portão, um memorial e um estacionamento. E a cada passo eu me sentia caminhando dentro das páginas do livro pop up.

A cidade te surpreende. Blocos de concreto no meio da cidade são um memorial aos judeus mortos no Holocausto. Um estacionamento com uma árvore plantada, um dia abrigou, cinco metros abaixo da superfície, o bunker onde Hitler se suicidou. Um muro que um dia dividiu uma cidade hoje é uma tela para artistas.

É incrível, mágico. É observar como acontece a resiliência (capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças) na prática. É fazer arte do que um dia marcou sua tristeza. E o medo de não conseguir me identificar e me apaixonar pela cidade ficou esquecido em alguma das esquinas ou no porta casacos do restaurante.

Abracei o Muro de Berlim sem vontade de soltar. Como se eu pudesse juntar os caquinhos de tudo o que foi despedaçado na história dessa cidade no último século. Não consegui. No fim do abraço quem estava em caquinhos era eu. Porque Berlim te parte no meio. Com um muro, com o peso de faces de metal, com memoriais, com sua história. Mas de alguma forma ela te junta em algo novo. Numa versão mais resiliente e mais consciente do que a vida é. Na sua versão mais completa.

Um Bocadinho, página 153

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Memorial do Holocausto
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Marcação no chão de onde era o Muro de Berlim

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